Conhecido mundialmente como autor de As Crônicas de Nárnia, C.S. Lewis escreveu em seu livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz que o diabo não convence com mentiras explícitas, mas com meias verdades habilmente manipuladas. Lula parece ter seguido a cartilha: em discurso na Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, sobre os 90 anos do salário mínimo, afirmou que “se a gente não for esperto, a mentira vencerá a verdade”. A frase soa como defesa da verdade, mas carrega a esperteza de quem molda narrativas conforme a conveniência.
Discurso com tom eleitoral
No evento da última sexta-feira (16), Lula adotou um tom claramente eleitoral. Manifestou preocupação com fake news e disse que seus apoiadores precisam ser “espertos” para que a mentira não vença. O presidente, em seu terceiro mandato, deve disputar a reeleição em outubro, em um cenário de polarização semelhante ao de 2022. Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, aparece como principal adversário.
Críticas às redes sociais
Lula aproveitou para atacar o peso das redes sociais e ironizar Bolsonaro: “Não vejo um professor de matemática com quatro milhões de seguidores, mas se um influencer falar bobagem pode ter 20 milhões. Bolsonaro tinha 30 milhões.”
O detalhe curioso, e não mencionado, é que o próprio Lula, sem formação acadêmica, soma mais de 24 milhões de seguidores em suas plataformas digitais, segundo levantamento da CNN Brasil. Ou seja, a crítica cabe perfeitamente ao espelho.
Apostas e arrecadação
Lula criticou a popularização das bets e o acesso fácil a jogos de azar: “O cassino entrou dentro de casa, para a criança pegar o telefone do pai e jogar, com essa bets aí, tomando conta do futebol, da publicidade e com corrupção.”
Apesar da crítica, o governo não reprimiu o setor, mas buscou lucrar com ele. A Caixa Econômica chegou a anunciar sua própria plataforma de apostas, planejada para operar em 2026 e gerar R$ 2,5 bilhões em arrecadação. Afinal, se não pode vencê-las, junte-se a elas — e cobre imposto.
Alerta sobre inteligência artificial
O presidente também falou sobre inteligência artificial, dirigindo-se às mulheres: “Mulheres, cuidado com a inteligência artificial. Ela é capaz de tirar foto sua aqui e colocar você pelada no celular.”
Apesar da frase de impacto, a preocupação central parece ser outra: o efeito de conteúdos gerados por IA nas eleições, como o próprio Lula admitiu durante o discurso.
A esperteza e a meia-verdade
Na tradição cristã, o diabo é chamado de “pai da mentira” (João 8:44). Sua arma não é a mentira óbvia, mas a astúcia. Em Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, Lewis descreve como a manipulação de meias verdades é mais eficaz do que falsidades explícitas.
O discurso de Lula parece refletir esse mecanismo: não mente diretamente, mas constrói narrativas que omitem informações cruciais, alterando o contexto e confundindo o público. É a esperteza que, segundo Lewis, mantém a sociedade em estado de confusão — e que, no palanque, rende aplausos.
O Brasil não é Nárnia
Em As Crônicas de Nárnia, Lewis apresenta a Feiticeira Branca, que promete maravilhas mas entrega apenas um inverno eterno. Ao ouvir Lula, a impressão é semelhante: discursos recheados de esperteza, promessas mágicas e narrativas encantadas que parecem saídas de um reino fantástico.
No fim, fica a sensação de que o presidente acredita que o povo brasileiro vive em Nárnia — ou talvez seja ele próprio quem ainda não saiu de lá.
2026-01-17 12:09:00



