Prefeitura some com os números: população de rua no Rio pode ser três vezes maior que o oficial

O último censo municipal, feito em novembro de 2024 e concluído em março de 2025, mostrou que o Rio teria 8.195 pessoas em situação de rua. Mas um estudo da UFMG, baseado no CadÚnico, aponta para 23.431 pessoas vivendo nessa


O último censo municipal, feito em novembro de 2024 e concluído em março de 2025, mostrou que o Rio teria 8.195 pessoas em situação de rua. Mas um estudo da UFMG, baseado no CadÚnico, aponta para 23.431 pessoas vivendo nessa condição em 2025. A discrepância é tão gritante que parece piada de mau gosto: ou a Prefeitura não sabe contar, ou prefere fingir que a miséria não existe.

Como se não bastasse, o levantamento oficial só foi publicado discretamente em janeiro de 2026, sem anúncio, sem coletiva, sem destaque. Transparência virou artigo de luxo, e o reflexo está nas ruas: praças, marquises e viadutos ocupados por pessoas invisíveis, muitas reféns das drogas, recorrendo a furtos e assaltos com facas para sustentar o vício. A insegurança urbana é o retrato da omissão.

O silêncio que virou política

O Ministério Público Federal já pediu acesso aos dados desde 2024. A Prefeitura ignorou. Agora, uma ação judicial acusa o município de omissão e pede intervenção urgente da Justiça Federal. Enquanto isso, os números oficiais seguem escondidos em páginas secundárias do Data.Rio, como se fossem segredo de Estado.

Quem são os invisíveis

O perfil traçado pelo censo municipal mostra que 70% são homens entre 18 e 49 anos, 83% pretos ou pardos, e a maioria não concluiu o ensino fundamental. A fome é rotina: 45% dependem de doações, 2% recorrem ao lixo, e 30% passaram pelo menos um dia inteiro sem comer na semana anterior à entrevista.

Dinheiro curto, problema longo

Em 2026, o orçamento da Secretaria Municipal de Assistência Social enviado à Câmara caiu R$9,7 milhões. A gestão garante que “todos os serviços foram mantidos ou ampliados”, mas não explica como se faz milagre com tão pouco.

A cidade que expulsa em vez de acolher

Em vez de ampliar acolhimento, a gestão aposta na arquitetura hostil: grades em praças, pedras sob viadutos, e vista grossa para vasos de concreto, grades e marquises derrubadas para afastar os pobres e “limpar” a paisagem. O Rio de Janeiro transformou-se em laboratório de como maquiar a miséria sem resolvê-la.

A farsa urbana

Enquanto os números oficiais tentam minimizar a tragédia, a realidade escancara o fracasso das políticas sociais. O Rio não apenas convive com a miséria — ele a esconde, disfarça e empurra para debaixo do tapete. Só que, diferente da sujeira, a população em situação de rua não desaparece: cresce, ocupa espaços e expõe a farsa de uma cidade que prefere expulsar em vez de acolher.



Conteúdo Original

2026-01-15 10:08:00

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