Ao presidir o COSUD Rio, que aconteceu entre os dias 4 e 6 de dezembro de 2025 na capital fluminense, o governador Cláudio Castro aproveitou para mandar um recado a todo o país: “Nenhum estado vence o crime sozinho. Ou atuamos como região, compartilhando inteligência e unificando estratégias, ou perderemos tempo e vidas”. Se a 14ª edição do evento trouxe avanços em diversas frentes, foi na segurança pública que o Cosud alcançou maior protagonismo. Em entrevista exclusiva ao site COISAS DA POLÍTICA, Cláudio Castro fala sobre os desdobramentos do Consórcio e os próximos passos. Confira!
1. O que o Cosud do Rio deixa como marca principal desta edição?
Acredito que esta edição consolida uma virada institucional. O Cosud não é um encontro periódico, este consórcio é uma plataforma contínua de produção de políticas públicas. No Rio, estruturamos entregas concretas — principalmente na área de segurança, com a criação de um Escritório Integrado de Inteligência e Investigação, integração digital entre secretarias — mas também reforçamos algo maior: uma cultura de cooperação. Os estados já não discutem ideias de forma isolada; agora, trabalhamos com metas comuns, indicadores compartilhados, sem ideologia política. Essa virada é o legado mais importante.
2. A segurança pública ocupou o centro do debate. O que muda daqui para frente?
O que muda é a forma de encarar o problema. O crime organizado opera de maneira interestadual, transnacional e multissetorial. Não adianta cada estado fazer o seu. A segurança pública não pode ser vista de maneira ideológica. O Cosud avança para um modelo que combina operações articuladas, interoperabilidade tecnológica, integração de bancos de dados, planejamento conjunto e diálogo permanente entre as polícias. Também discutimos legislação, financiamento e modelos de prevenção. A partir desta edição, segurança pública deixa de ser um tema adjacente e passa a ser um eixo estruturante do consórcio. No Cosud, alinhamos soluções técnicas e união política em prol da tranquilidade da população
3. Como o Cosud tem contribuído para qualificar o debate sobre segurança pública e promover ações mais integradas entre os estados?
Estamos falando de um tema estrutural, que exige integração efetiva entre os entes federados, planejamento de longo prazo e coragem para enfrentar problemas que nenhum estado consegue superar isoladamente. No Cosud, avançamos em discussões estratégicas que vão muito além da atividade policial. Segurança hoje é tecnologia embarcada, gestão baseada em evidências, financiamento sustentável, interoperabilidade entre instituições e modelos de governança capazes de responder à complexidade do crime organizado. É essa ambiência técnica, madura e cooperativa que permite construir soluções reais. E quando se garante coerência, continuidade, inteligência e planejamento, os resultados deixam de ser uma aposta e passam a ser uma consequência. É exatamente essa a direção que estamos fortalecendo no Cosud.
4. Na Carta do Rio assinada ao fim desta edição, os governadores defenderam a participação dos chefes dos Executivos estaduais na tramitação da PEC da Segurança. Quais são os principais pontos que o consórcio apresenta nesse debate?
Segurança pública não se resolve com conflitos nem com discursos simplificados; se resolve com quem está na linha de frente e vive essa realidade todos os dias. Por isso, o debate nacional — incluindo a tramitação da PEC da Segurança — precisa garantir a participação plena dos governadores, que são os responsáveis diretos pelo policiamento, pelas investigações, pela custódia e pela administração prisional em cada estado. Na Carta que assinamos no Cosud, defendemos pontos objetivos, como a preservação da autonomia das polícias estaduais, que devem permanecer subordinadas aos governadores, e a criação de um modelo de compensação financeira para os estados, que hoje utilizam recursos próprios para enfrentar crimes que, muitas vezes, têm natureza federal. A politização da segurança pública é um erro gravíssimo — desorganiza, fragiliza e afasta soluções realmente técnicas. Precisamos de seriedade e independência técnica para avançar.
5. Como os governadores do Sul e Sudeste avaliam o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado que está em discussão no Congresso Nacional?
Esse é um dos pontos centrais que destacamos na Carta do Cosud. O Marco Legal do Combate ao Crime Organizado precisa avançar não apenas no aumento de penas e na criação de novos tipos penais, mas também em mecanismos eficazes de estrangulamento financeiro das facções. A recuperação de ativos tem se mostrado, na prática, uma das ferramentas mais eficientes para interromper o fluxo de dinheiro que sustenta essas organizações. Os estados têm atuado para desarticulação de redes clandestinas de lavagem de dinheiro, mas a atual sistemática — que destina integralmente ao governo federal os valores recuperados em investigações estaduais — acaba distorcendo o princípio federativo. Parte desses recursos precisa permanecer nos estados, que são quem realiza a maior parte das operações e arca com os custos operacionais. Além disso, propusemos que uma parcela da arrecadação proveniente da taxação das apostas esportivas (bets) seja direcionada ao financiamento permanente das políticas de segurança pública. Isso reduz a dependência de repasses eventuais e cria uma fonte estável para investimentos em tecnologia, inteligência e operações. Esse é o caminho para fortalecer o combate ao crime organizado com autonomia e eficiência.
6. O que ainda falta no arcabouço legal brasileiro para que os estados consigam enfrentar com mais eficiência crimes de alta periculosidade, como o tráfico de armas e a atuação de facções?
É indispensável promover ajustes na legislação penal e processual penal para que o Estado consiga punir com mais eficácia crimes de alto potencial ofensivo, como o tráfico de armas de guerra e a atuação de lideranças de facções a partir do sistema prisional. O Rio de Janeiro é um exemplo claro dessa realidade: o estado enfrenta, diariamente, organizações criminosas altamente estruturadas, que se valem de brechas legais para continuar operando. Mas não basta olhar para o sistema de Justiça: é fundamental reforçar o controle de fronteiras, que hoje são portas de entrada para armas e munições. Em resumo, precisamos encarar a verdadeira dimensão do desafio da segurança pública no Brasil e agir de forma coordenada e estruturante.
7. Existe um movimento dos governadores por maior protagonismo frente à União. Qual é a mensagem principal?
A mensagem é de equilíbrio federativo. O Sul e o Sudeste são responsáveis por mais de 70% do PIB do Brasil, concentram os maiores polos industriais, tecnológicos e de serviços, e possuem enorme potencial econômico. O que pedimos não é privilégio, mas proporcionalidade — em investimentos, repasses, participação nas decisões estratégicas e diálogo constante. O Cosud não se coloca contra a União, mas quer ter voz ativa. Estados fortes fortalecem o Brasil, e essa visão precisa ser traduzida em políticas públicas.
8. O que representa o Cosud hoje para o país?
O Cosud é a prova de que a cooperação federativa, quando profissionalizada e contínua, gera resultados reais e transforma a vida das pessoas. É um pacto moderno entre estados que enxergam o futuro de maneira conjunta, com foco em segurança, inovação e competitividade.
2026-01-11 00:15:00



