No início do mês, a Polícia Federal (PF) prendeu o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União). Bacellar é acusado de ter vazado informações sigilosas ao ex-deputado Thiego Raimundo dos Santos, o TH Joias, suspeito de vínculo com o Comando Vermelho. Acabou solto pelo plenário e deixou a presidência da Alerj. Ontem, como antecipou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, a PF voltou à carga e prendeu o desembargador Macário Júdice Neto, relator do caso TH Joias no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2).
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Júdice já havia sido alvo de processos sob acusação de venda de sentenças, enfrentou Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e cumpriu período de afastamento de 18 anos. Entre os elementos que embasaram sua prisão, estão trocas de mensagens com Bacellar. A principal suspeita que pesa sobre ele — autor do mandado de prisão de TH Joias — é ter participado do vazamento. Segundo a PF, Bacellar avisou TH que ele seria preso. TH conseguiu fugir e destruiu provas, depois acabou detido noutro endereço. Pelas informações disponíveis, não está claro o papel de Júdice. É fundamental não tirar conclusões precipitadas do episódio. As investigações estão em curso e, por enquanto, existem apenas suspeitas. Mas é essencial apurá-las.
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A PF tem o dever de desvendar os elos entre o crime organizado e as autoridades. O vazamento de uma operação sigilosa é fato extremamente grave, que exige investigação. Tais ações costumam consumir meses de planejamento, além de recursos humanos e materiais. Uma informação para o alvo pode pôr tudo a perder.
As suspeitas que recaem sobre TH Joias são também gravíssimas. Ele é acusado de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e de negociar armas e sistemas antidrones com facções criminosas do Rio e de São Paulo. Já seria estarrecedor caso se tratasse de um cidadão comum. É ainda mais quando envolve um representante eleito do Poder Legislativo. A sociedade espera dos parlamentares que se engajem na luta contra o crime organizado, não que se juntem às fileiras de grupos armados que amedrontam o país. É um acinte para o cidadão cujos impostos financiam gastos cada vez maiores com segurança.
Não é novidade que facções e milícias têm se expandido para o mercado formal e tentam se infiltrar nos Poderes da República de modo a obter vantagens e influenciar decisões que poderiam comprometer seus negócios ilegais. A Operação Carbono Oculto, contra o PCC, expôs a contaminação de setores formais pelo crime, permeando cadeias produtivas inteiras, em especial a de combustíveis. Se o país quiser avançar na segurança, precisará erradicar todo e qualquer vínculo das organizações criminosas com o poder público. Não se devem tirar conclusões precipitadas sobre o envolvimento dos alvos das operações. Mas as suspeitas devem ser investigadas a fundo, com independência, transparência e responsabilidade.
2025-12-17 00:09:00



